Agricultura Natural segundo Mokiti Okada

Postado em 23 de agosto de 2019

A GRANDE REVOLUÇÃO DA AGRICULTURA

Mokiti Okada, cuja filosofia é seguida pela Korin, escreveu este ensinamento em 1953. É possível perceber muitos dos aspectos por ele descritos, acontecendo. Confira, no texto abaixo, as palavras de Mokiti Okada sobre a Agricultura Natural

Parte I

Mokiti Okada

Há mais de dez anos descobri e venho propondo o método agrícola que, dispensando o uso dos adubos químicos e do estrume de origem animal e humana, possibilita a obtenção de grandes colheitas. Naquela época, conquanto eu me esforçasse bastante, tentando convencer os agricultores, ninguém queria me ouvir. Entretanto, é minha convicção, desde o princípio, que o método natural de cultivo representa a Verdade Absoluta, e estou certo de que todos chegarão à mesma conclusão, compreendendo também que, se não se apoiarem nisso, não só os agricultores nunca poderão ser salvos, mas o próprio destino da nação ficará comprometido. É por esse motivo que venho insistindo no assunto até hoje.

Como a situação foi se tornando séria, exatamente como eu temia que acontecesse – não sei se feliz ou infelizmente sinto uma necessidade cada vez maior de fazer os agricultores japoneses e todos os povos entenderem a Agricultura Natural. Comecei, também, a enxergar luz no futuro da nossa agricultura, motivo que me leva a anunciá-la aqui, de maneira ampla, certo de que afinal chegou a hora.

O fato de eu ser um religioso favoreceu a implantação da Agricultura Natural. Com efeito, não foram poucos os fiéis que, embora não compreendessem bem as minhas explicações, passaram a praticar esse método de cultivo, podendo constatar seus resultados positivos num espaço de tempo relativamente curto. Pouco a pouco foi crescendo o número de simpatizantes, inclusive entre agricultores fora da esfera da Igreja.

Explicarei agora, minuciosamente, o princípio básico da Agricultura Natural, método que permite a obtenção de grandes colheitas utilizando apenas compostos naturais. Abordarei, em primeiro lugar, as vantagens do método: não serão necessários gastos com adubos, o dano causado pelos insetos nocivos diminuirá de forma considerável, ficarão reduzidos a menos da metade os prejuízos causados pelos ventos e pelas chuvas. Logo, é um método assombroso. Tudo isso refere-se ao arroz, mas aplica-se a qualquer tipo de produção agrícola. Resumindo, todos os produtos cultivados pela Agricultura Natural apresentarão maravilhosos resultados. No caso da batata-doce, por exemplo, obter-se-ão batatas enormes, de causar espanto; nas leguminosas os grãos serão grandes, e a quantidade maior; o nabo terá uma bela cor branca, textura fina, consistente e macia, e um excelente sabor; as verduras, não carcomidas pelos insetos, terão boa coloração, serão macias e de sabor esplêndido. Além dessas espécies, o milho, a melancia, a abóbora, enfim, todos os cereais, legumes, verduras ou frutas, serão de ótima qualidade.

Merece especial destaque o maravilhoso sabor dos produtos da Agricultura Natural; quem experimentar seu arroz, trigo e verduras, é provável que nunca mais tenha vontade de comer os que são produzidos através do cultivo com adubos. Atualmente eu me alimento apenas com produtos naturais e, como felizmente os praticantes do método vêm aumentando cada vez mais, ganho-os em grande quantidade, a ponto de não poder consumir tudo.

Quanto às frutas, são de qualidade muito boa, tendo tido sua safra aumentada após a suspensão do uso de adubos; como a receita decorrente de sua venda também aumentou, todos os interessados estão agradecidos. Do mesmo modo, as flores são maiores, de coloração mais bonita e viva; usadas em vivificações florais, por exemplo, duram mais tempo, contentando mais e melhor a muitas pessoas.

Logo em seguida à adoção da Agricultura Natural, ocorre uma acentuada diminuição de insetos nocivos. Estes surgem dos adubos artificiais e por isso é óbvio que, se os agricultores deixarem de usar tais adubos, eles não se criarão mais. Hoje em dia, entretanto, na tentativa de exterminá-los, utilizam-se intensamente os defensivos agrícolas, que, penetrando no solo, tornam-se a causa da proliferação dos insetos nocivos. De tal forma isso revela ignorância, que nos causa compaixão.

Nos últimos tempos, os produtos agrícolas mostram-se mais vulneráveis aos danos causados pelos ventos e pelas chuvas que ocorrem todos os anos; na Agricultura Natural, tais prejuízos diminuirão muito, porque, deixando de absorver adubos artificiais, que os enfraquecem demasiadamente, os produtos resistirão melhor às intempéries.

Descobri que tanto os adubos de origem animal como os adubos químicos, ao serem absorvidos pelas plantas, tornam-se venenos e que esses venenos vêm a constituir alimento para os insetos nocivos, os quais passam a se multiplicar ferozmente. Conforme o tipo de adubo, a partir dele próprio proliferam microorganismos que começam a carcomer as plantas. Se surgirem na raiz, carcomerão os pêlos absorventes e acabarão por enfraquecer o vegetal. Aí está a causa das folhas secas, caules quebrados, queda das flores, frutos imaturos e atrofiamento das batatas. Inúmeros outros tipos de microorganismos podem proliferar nas diversas partes da planta, mas, se esta for saudável, terá força para eliminá-los. Entretanto, devido ao enfraquecimento causado pela aplicação de adubos, as plantas acabam sendo vencidas por eles.

A planta sem adubos é mais resistente aos ventos e às chuvas, não se prostrando com facilidade; ainda que caia, logo se reerguerá, ao passo que a cultivada com adubos permanecerá caída, ocasionando um prejuízo enorme. Poderão compreendê-lo bem se observarem a ponta das raízes. Nas plantas cultivadas sem adubos, os pêlos absorventes são muito mais numerosos e compridos, e a ramificação é bem maior; portanto, o enraizamento é mais forte. Quer se trate de arroz, quer se trate de verduras, qualquer agricultor sabe que quanto menor é a estatura da planta e quanto mais curtas são as suas folhas, mais frutos ela dará. Em contrapartida, as plantas cultivadas com adubos são mais altas, têm folhas grandes, mas, embora à primeira vista sejam magníficas, sua frutificação não é tão boa.Mokiti Okada

Correlatamente, no caso do bicho-da-seda, se o cultivarmos com amoreira tratada sem adubos, ele será saudável, seu casulo terá mais resistência e brilho, e a produção será maior. Isso também se deve à não-proliferação de doenças no bicho-da-seda.

Conforme vemos, todos os produtos cultivados pela Agricultura Natural são incomparavelmente vantajosos em relação aos que são cultivados com adubos.

O que se deve conhecer em primeiro lugar, é a capacidade específica do solo. Antes de mais nada, ele foi criado por Deus, Criador do Universo, a fim de produzir alimento suficiente para prover o homem e os animais. Por essa razão, a terra já está em si mesma abundantemente adubada – podemos até dizer que toda ela é uma massa de adubos. Desconhecendo isso até hoje, os homens se enganaram ao pensar que os alimentos das plantas são os adubos. Baseados nessa crença, vieram aplicando adubos artificiais e, conseqüentemente, foram enfraquecendo, de forma desastrosa, a energia original do solo. Não é um equívoco espantoso?

Para que a produção agrícola aumente, deve-se fortalecer ao máximo a própria energia do solo. E como se poderá fazer isso? Não lhe misturando nada a não ser os compostos naturais, fazendo-o permanecer puro e preservando-o o mais que se puder. Assim se obterão ótimos resultados, mas, com a mentalidade que tem vigorado até agora, jamais se conseguirá acreditar nisso.

Com base nas razões citadas, vemos que o princípio fundamental da Agricultura Natural é o absoluto respeito à Natureza, que é uma grande mestra. Quando observamos o desenvolvimento e o crescimento de tudo que existe, compreendemos que não há nada que não dependa da força da Grande Natureza, isto é, do Sol, da Lua e da Terra, ou, em outras palavras, do fogo, da água e da terra. Sem dúvida isso ocorre também com as plantações, pois, se a terra for mantida pura e elas forem expostas ao sol e abundantemente abastecidas de água, produzir-se-á mais do que o necessário para o sustento do ser humano. Dirijam seu olhar para a superfície do solo das matas e atentem para a abundância de capins secos e folhas caídas, cuja provisão é renovada em cada outono. Eles representam o trabalho da Natureza para enriquecer o solo, e ela nos ensina que devemos utilizá-los. Os agricultores acreditam haver elementos fertilizantes nesses capins secos e folhas caídas, que eles consideram adubos naturais, mas isso não é verdade. A eficácia do “adubo natural” consiste em aquecer a terra e não deixar que ela resseque e endureça; em síntese, fazer que a terra absorva água e calor e não fique dura.

Assim, para darmos “adubo natural” ao arroz, basta cortar a palha em pedaços pequeninos e misturá-los bem à terra. Esse é o processo natural. A palha é do próprio arroz e é eficaz para o aquecimento das raízes. A existência de bosques perto das hortas é bem significativa: devemos usar as folhas e capins secos para o cultivo de nossas verduras. O centro do globo terrestre é uma enorme massa de fogo da qual se irradia constantemente o calor, isto é, o espírito do solo. Aí está o nitrogênio – adubo que nos foi concedido por Deus – o qual atravessa as camadas do planeta, eleva-se a uma certa altitude e aí permanece, até que, com a chuva, desça para sua superfície e penetre no solo. Esse nitrogênio caído do céu é adubo natural e, sem dúvida, sua quantidade é a ideal, sem excesso nem falta.

Mas por que razão começaram a empregar adubos de nitrogênio? Por ocasião da Primeira Grande Guerra, devido à falta de alimentos e à necessidade de aumentar rapidamente sua produção, a Alemanha descobriu o meio de obter nitrogênio da atmosfera. Ao empregá-lo, conseguiu que a produção tivesse um aumento enorme. A partir de então, tal resultado foi difundido mundialmente, mas a verdade é que se trata de algo passageiro, que não se prolongará por muito tempo. Fatalmente o excesso de nitrogênio provocará o enfraquecimento do solo e acabará fazendo a produção diminuir. Entretanto, ainda não se compreendeu esse mecanismo. Em outras palavras, basta pensarmos que tudo isso é semelhante ao que ocorre com os toxicômanos.

Há um fato para o qual devo chamar atenção: embora se adote a Agricultura Natural, a quantidade de tóxicos existentes no solo e nas sementes em conseqüência do cultivo tradicional, exercerá uma grande influência. Por exemplo: em alguns arrozais, a partir do primeiro ano haverá um aumento de 10% na produção; em outros, no primeiro e no segundo ano haverá uma redução de 10 a 20%; finalmente, a partir do terceiro ano, haverá um aumento de 10 a 20%, e daí em diante os resultados gradativamente alcançarão os índices esperados. Contudo, enquanto os resultados se apresentarem demasiado ruins, é porque ainda restam tóxicos de adubos artificiais em grande quantidade; para amenizar a ação destes últimos é bom acrescentar ao solo, provisoriamente, terras isentas de adubos.

Existe outro fato muito importante: uma vez que o arroz absorve adubos químicos como o sulfato de amônia, esse violento tóxico é ingerido pelo homem diariamente e, mesmo em doses mínimas, de forma imperceptível, é óbvio que irá causar-lhe danos. Pode-se dizer que talvez seja essa uma das causas do aumento percentual das pessoas hoje acometidas por doenças.

A seguir, enumero, de forma rápida, as vantagens econômicas do cultivo natural:

1 – Os gastos com adubos serão dispensados.

2 – Os trabalhos diminuirão pela metade.

3 – A safra aumentará enormemente.

4 – Os produtos aumentarão de peso específico, não diminuirão de volume ao serem cozidos e terão um delicioso sabor.

5 – O prejuízo causado pelos insetos nocivos diminuirá muito.

6 – Problemas que preocupam o homem como o das larvas e parasitas intestinais desaparecerão.

Através das vantagens acima, poderão compreender a enorme bênção que é o nosso método de cultivo. Com a Agricultura Natural, o problema alimentar do Japão ficará solucionado, o que, além de tudo, irá motivar ou exercer boa influência sobre outros problemas – principalmente o que concerne à saúde do homem. Se essa técnica for difundida pelo nosso país, incrementar-se-á sua reconstrução, e não há a menor dúvida de que, um dia, ele chegará a ser visto, por todos os outros países, como uma nação de cultura elevada. Trabalhando nesse sentido, desejo fazer que o maior número possível de japoneses leia esta publicação especial.

Por último, quero frisar que não tenho o mínimo propósito de divulgar nossa Igreja através do presente artigo, mesmo porque as pessoas alheias a ela poderão praticar a Agricultura Natural e alcançar bons resultados, conforme dissemos anteriormente.

 

Parte II

Examinando os relatórios provindos de várias regiões sobre os resultados da Agricultura Natural no ano passado, constatei que alguns agricultores, infelizmente, por ser ainda muito cedo, não puderam efetuar colheitas. Entretanto, como tenho dados suficientes, passo a relatar minhas impressões.

Visto que a Agricultura Natural, antes de tudo, dispensa os adubos, até agora considerados como a vida dos produtos agrícolas, todos os tipos de censura lhe foram feitos pelos próprios familiares dos agricultores e por pessoas de suas aldeias, terminando por torná-la alvo de gozação e risos. Mas os praticantes do método suportaram tudo isso em silêncio e persistiram. Ao ler esses relatos, lágrimas de emoção me sobem aos olhos; sinto, também, um aperto no coração quando penso que, não fosse pela sua fé, eles nada teriam conseguido. Entretanto, partindo de pessoas que descendem de longas gerações totalmente dominadas pela superstição dos adubos, essa descrença de muitos é natural. Tudo isso me faz lembrar certos descobridores e inventores que a História registrou, cujas obras ainda hoje prestam serviços à humanidade, e que, mesmo sofrendo por mal-entendidos e opressões, continuaram lutando para ver reconhecidos os frutos de sua inteligência e trabalho. Esse difícil procedimento não poderia deixar de nos comover.

Com base nisso, eu estava certo de que a Agricultura Natural encontraria, por algum tempo, oposição e dificuldades, mas também acreditava que ela não tardaria a mostrar resultados surpreendentes, bastando ter paciência durante certo período. Como eu esperava, posso notar, através dos relatórios chegados às minhas mãos, que finalmente o cultivo sem adubos está despertando interesse em vários setores. No início, as circunstâncias eram muito desfavoráveis e, como os próprios agricultores não tinham muita confiança no novo método, foram poucos os que abertamente começaram a praticá-lo; a grande maioria começou a experimentá-lo naquele estado de “confiar, desconfiando”. Além do mais, como a terra e as sementes ainda estavam muito impregnadas de tóxicos, no primeiro ano as plantas apresentavam folhas amarelas e talos muito finos, de modo que os plantadores chegavam a achar que elas secariam. Segundo suas próprias informações, isso os deixava tão inseguros e impacientes, que só lhes restava orar a Deus por um milagre; entretanto, diante dos bons resultados na época das colheitas, eles ficaram mais tranqüilos, embora só viessem a receber a coroa da vitória depois de ultrapassada essa fase difícil.

5 de maio de 1953