Antibióticos e a produção animal

Postado em 3 de novembro de 2015

Os Estados Unidos sempre foram grandes defensores do uso de antibióticos na produção animal. Seus trabalhos apontavam sempre pequenos riscos para a saúde humana em detrimento do benefício que traziam em termos de eficiência produtiva. Isso começou a mudar há pouco tempo, em razão do crescente número de achados de bactérias, como a salmonela, resistentes a vários tipos de antibióticos.  Estas constatações cada vez mais frequentes vem dando ensejo a intensivas campanhas populares para maior controle no uso de antibióticos. Até mesmo o presidente Barack Obama se envolveu na discussão, propondo programas em âmbito nacional com o objetivo de reduzir significativamente o uso de antibióticos na produção animal naquele país. As discussões sobre o uso extensivo de antibióticos em animas destinados à alimentação humana estendem-se a produção de alimentos em geral, visto que as consequências negativas à saúde da população e ao meio ambiente tornam-se mais perceptíveis. Além disso, o uso de agroquímicos e a ausência de bem estar nos sistemas intensivos de produção agregam mais elementos a esta discussão.

Os antibióticos, que no rescaldo da segunda Guerra Mundial foram introduzidos nas rações dos animais, aceleraram enormemente as taxas de produtividade, tornando-se um instrumento imprescindível para a evolução da produção intensiva nos últimos 40 anos.  Uma grande quantidade de suínos e aves de corte e postura no mundo, assim como as vacas de leite e o gado de corte em sistemas confinados, recebem antibióticos em sua alimentação. Estima-se que o uso de antibióticos em animais chega a ser até 12 vezes superior ao uso por humanos. A exceção ocorre na produção orgânica e em produções diferenciadas devidamente informadas.

Os defensores dos antibióticos partem do pressuposto de que o seu uso é necessário, para suprir à população mundial. Defendem ainda, que as análises realizadas para sua liberação garantem a segurança na alimentação humana.

Há, de fato, modelos analíticos complexos feitos em animais cobaias para se determinar a chamada ingestão diária aceitável (IDA) de tais substâncias para seres humanos. O grave problema é que estes protocolos analíticos adotados pelo Codex Alimentarius (normas, códigos de conduta e recomendações internacionalmente reconhecidas para a produção e comércio de alimentos) quando realizados, são capazes de medir o nível de toxicidade em cobaias de forma individualizada, ou seja, apenas uma substância é submetida a testes de cada vez. Assim, não se conhece exatamente qual seria a toxicidade de uma ingestão variada e complexa de tipos de antibióticos, antiparasitários, conservantes, aditivos, etc., que todos nós, consumidores, ingerimos em nossas refeições. É com base nesses fatos que muitos países europeus, e também os Estados Unidos, têm aplicado o princípio da precaução, ou seja, aplicam-se proibições mesmo sem todas as comprovações científicas, nas discussões sobre alimentos.

No Brasil, experiências pioneiras realizadas desde 1991 na produção de frangos livre de antibióticos, por exemplo, mostram melhorias a cada ano. Os índices de produtividade, que no início eram significativamente inferiores aos frangos em sistemas convencionais, atualmente mostram-se em muitos casos, iguais. O acúmulo de experiências tem levado o método a soluções inovadoras, uma vez que as estratégias nutricionais se apoiam cada vez mais no uso de insumos naturais, como microrganismos e óleos essenciais de plantas na alimentação animal.

Por isso, nos dias atuais, mais do que nunca é necessário que as empresas tomem posição nas questões éticas e humanitárias que envolvem o bem estar dos animais e o uso de antibióticos. É de se esperar que as crescentes restrições ao uso de antibióticos direcionarão a produção num sentido mais favorável aos anseios deste crescente número de consumidores, beneficiando desta forma a qualidade e a segurança alimentar de toda a sociedade.

Por Luiz Carlos Demattê Filho, médico veterinário, doutor em Ecologia Aplicada pela ESALQ
É diretor industrial da Korin e coordenador geral do Centro de Pesquisa Mokiti Okada.