Hoje no Valor Econômico: “Korin decide ampliar foco dos negócios”

Postado em 15 de junho de 2018

Por Bettina Barros
De São Paulo

Uma das marcas mais conheci­das no segmento de alimentos orgânicos e livres de antibióticos ou promotores de crescimento animal, a Korin parte agora para uma nova estratégia comercial de reposicionamento de merca­do. Com faturamento de RS 140 milhões cm 2017, a empresa dá os primeiros passos para ir além do nicho de alimentação saudá­vel e se tomar uma empresa de agricultura natural — um espec­tro mais amplo de negócio que inclui o desenvolvimento e a co­mercialização de insumos para o campo e trabalhos de pesquisa e consultoria a terceiros.

Para tanto, a empresa paulista, com sede em Ipeúna, concluiu uma reorganização operacional que culminou com uma nova divi­são em três unidades de negócio: a Korin Agropecuária, que engloba o portfólio de 235 produtos, entre carnes, embutidos, ovos, café, mel e cereais; a Korin Agricultura e Meio Ambiente, braço de pesqui­sa, consultoria e produção de insu­mos; e a Korin Administração de Franquias, com foco na expansão de lojas no pais. As três divisões es­tão sob a holding Korin Empreen­dimentos e Participações.

A decisão visa dar fôlego a negó­cios promissores, mas que estavam até então “perdidos* no antigo modelo de gestão, diz Reginaldo Morikawa, diretor-superintenden­te da Korin. Além disso, a reorgani­zação pretende racionalizar a complexidade fiscal — e reduzir custos com impostos — de uma empresa que já atua em vários Es­tados, com  1965 pontos de venda e um leque de 350 agricultores, pe­cuaristas e apicultores parceiros.

“Está nascendo uma agricultura biológica, que vai além da orgâni­ca. E estamos nos reorganizando com base na emergência desse no­vo modelo agrícola”, afirma o exe­cutivo, chamado internamento de “Reverendo Morikawa”, a posição máxima almejada na Igreja Mes­siânica, à qual a Korin é ligada.

Nesse contexto, a empresa pre­tende ampliar os esforços de de­senvolvimento de produtos que atendam às necessidades contem­porâneas do campo — ou seja, um plantio mais limpo, com opções ao uso excessivo de químicos no solo.

Antes mesmo da reorganização, a Korin já havia detectado essa ten­dência de mercado. Os defensivos agrícolas biológicos crescem de 10% a 12% no mundo, e 15% no Bra­sil. “O potencial de expansão é fan­tástico”. diz Luiz Carlos Demattê Fi­lho, ex-diretor industrial da Korin e agora CEO da divisão de Agricul­tura e Meio Ambiente da holding

A Korin já desenvolveu 26 tipos de insumos considerados natu­rais, O primeiro c mais conhecido é o Bokashi, um fertilizante orgâ­nico composto, cuja ideia foi tra­zida do Japão nos anos 1970 e colocada no mercado brasileiro pe­la Korin em 2002. A empresa tam­bém passou a trabalhar com ace­leradores de compostagem (usa­do por exemplo, na palha dos ca­naviais e no tratamento de efluentes de frigoríficos), com probióticos ambientais (para o controle da emissão de amônia em granjas, entre outras funções) e, a partir deste ano, com uma li­nha de sementes de hortaliças. A divisão já fatura entre RS 4 mi­lhões a RS 5 milhões por ano. A expectativa é que, agora como uma divisão independente e com a expansão de catálogo prevista, suba para RS 8 milhões em 2018.

“Embarcamos nossa primeira carreta de biofertilizante para a Bolívia este mês”, diz Morikawa.

Todas as sementes de hortaliças são produzidas em Ipeúna, em uma área de 172 hectares onde es­tão também a unidade de abate de frangos criados sem antibióticos e a produção de ovos gerados por galinhas que vivem soltas e com dieta vegetal — a imagem de saúde que deu à Korin a alcunha da mar­ca “predileta de mães e pediatras”.

As pesquisas, realizadas pela Fundação Mokiti Okada, da Igreja Messiânica, migraram para a Ko­rin Agricultura e Meio Ambiente. À fundação caberá focar no papel so­cial para seu rebanho no país, com cerca de 1,5 milhão de seguidores. Carro-chefe da companhia, a Korin Agropecuária ainda respon­de pela maior parte da receita obti­da. Mas é um segmento de alta competitividade, na medida em que outras marcas entram no seg­mento de produtos naturais, e de dificuldade dobrada para a Korin, que também persegue boas práti­cas sociais e bem-estar animal, rastreabilidade e mantém sete selos de certificação para os mercados nacional e exterior.

As apostas são sempre riscos to­mados, nem sempre com um final feliz. Após um longo estudo de mercado para entrar no negócio de peixes amazônicos, a compa­nhia voltou atrás por não conse­guir garantir a rastreabilidade da cadeia, até o pescador. Morikawa explica que a garantia de inclusão social ou cumprimento de regras trabalhistas não foi obtida. Em ou­tro revés, viu frustrado os planos de exportação de carne de frango.

Foram apenas dois embarques a Hong Kong. Com a reviravolta na indústria nacional de frangos, após as operações da Polícia Federal, a empresa entrou no pacote de embargos à carne brasileira.

“Não podemos parar”, diz o re­verendo. “Se não deu certo agora com os peixes da Amazónia, vamos trabalhar com tilápias criadas sem hormônio, no Mato Grosso do Sul, e camarões do Ceará”. O mar­keting nos consultórios ele já tem.

 

Produtos que alimentam uma filosofia

 

Fundada no Japão em 1º de janei­ro de 1935 por Mokiti Okada, a Igre­ja Messiânica Mundial tem como principal objetivo a construção do Paraíso Terrestre — ou seja, um mun­do isento de doenças, miséria e con­flitos. Mais próxima de uma filosofia de vida do que de uma religião — é possível ser messiânico, no sentido de entendimento do mundo, e pra­ticante de candomblé, por exemplo —, a Igreja se baseia em três alicerces para a construção desse paraíso: a crença no Deus Supremo, a apreciação do belo e da natureza e a alimen­tação natural, sem agroquímicos.

Por isso a Korin existe. Para ser membro da Igreja, alimentar-se de forma saudável é uma condição básica. Assim como os alimentos kosher nasceram para servir à filosofia judaica e os produtos halal à muçulmana, a Korin foi criada no Brasil em 1994 — 39 anos após a Igreja desembarcar no país — para atender aos messiânicos, hoje na casa de 1,5 milhão de pessoas.

O nome Korin (lê-se Kô-rin, ou anéis de luz, em japonês) e cedido a grupos alinhados com a agricul­tura natural vinculados à Igreja. Além do Brasil, há a Afrikorin, em Angola, e a Koorin, na França.

O apelo a uma alimentação sem agroquímicos, antibióticos e pro­motores de crescimento em aves ar­regimentou novos consumidores no pais. A comunidade messiânica tor­nou-se minoria: 1% de sua carteia de clientes. Para a Igreja, a Korin forma­tou clubes de compras sociais, nos quais um pool de messiânicos fecha pedidos em volumes maiores com preços direto do produtor. Hoje, 15 de junho, os messiânicos reúnem-se no templo Solo Sagrado em Parelheiros (SP), para o culto à revelação de seu fundador. Hoje, portanto, é dia de renovação na Ko­rin: a luz espiritual aumenta, exacer­bando o bem de cada um. O culto te­rá transmissão ao vivo para as 50 igrejas messiânicas do Brasil e 630 Johrei Centers, pontos de encontro para exercer a doutrina.

Fonte: Valor Econômico (edição de 15/06/2018)