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“Neste mundo, ocorrem freqüentes desgraças porque é grande o número de pessoas falsas.” Mokiti Okada* - idealizador do Movimento para a Agricultura Natural |
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O desrespeito às Leis Naturais e os prejuízos à produção animal
23/1/2003
LUIZ CARLOS DEMATTÊ FILHO1
Nos últimos anos, mudanças profundas ocorreram nos sistemas da produção agrícola e pecuária, alterando significativamente a qualidade dos alimentos que consumimos. Estas mudanças começaram a ocorrer principalmente após a 2ª Guerra Mundial e intensificaram-se, particularmente, nas duas últimas décadas. Com os níveis de competição se elevando, houve a necessidade de se desenvolver sistemas de produção que reduzissem os custos e, ao mesmo tempo, elevassem a eficiência da produção.
Como o foco era, e continua sendo, a retenção de custos e sabendo que a maior porcentagem dos custos incide exatamente no alimento que os animais recebem, foi despertado o interesse pela pesquisa de ingredientes baratos, tais como os resíduos de abatedouros (farinhas de carne, de sangue, de ossos, de penas, de vísceras, gorduras animais, etc...) que pudessem ser utilizados na alimentação animal. Atualmente nos deparamos com um sistema de produção que negligencia as leis mais elementares da natureza. Tais leis universais, perfeitas e imutáveis, apesar de se encontrarem claramente em ação, somente vêm à consciência humana através de acontecimentos lastimáveis. Um dos mais recentes exemplos foi o aparecimento da encefalopatia espongiforme bovina (EEB) ou BSE, do inglês, Bovine Spongiform Encephalopaty. Ironicamente, esta doença apelidada de “o mal da vaca louca” constitui-se de um verdadeiro alarme disparado pela natureza após verificar que bois e vacas deixaram de ser exclusivamente vegetarianos para, de repente, tornar-se carnívoros.
A trajetória histórica da EEB se iniciou quando uma doença fatal denominada “scrapie”, que causa a degeneração do cérebro, foi descrita em ovelhas britânicas em 1930. Mais tarde, na década de 50, o agente causador deste mal foi identificado e caracterizado como uma proteína infecciosa denominada príon.
Na década de 70, as fábricas britânicas que produziam ração para bovinos já utilizavam gordura de ovelhas como ingrediente e, em 1981, animais que foram alimentados com tais rações começaram a ficar doentes.
Em 1990 a doença se espalhou pela Grã-Bretanha, comprometendo o consumo e as exportações de carne e, apesar de os primeiros indícios de contaminação de seres humanos datarem desta época, período em que 24 pessoas já haviam morrido, somente em 1996, quando o número de vítimas já tinha atingido 50 pessoas, o governo britânico admitiu que a doença poderia ser transmitida ao homem.
Em fevereiro deste ano, o professor John Collinge, diretor da Unidade Prion do Imperial School of Medicine de Londres, fez uma declaração assustadora sobre os futuros problemas decorrentes da atual crise da doença da vaca louca. Ele, que em 1995 descobriu que também o príon era o agente de contaminação do mal de Creutzfeldt Jakob, a forma humana da EEB, afirmou que se até agora foram confirmadas apenas 90 mortes devido a este mal, é porque o período de incubação pode ser de até 30 anos. Ao longo de milhões de anos os bovinos evoluíram dotando seu sistema digestivo de microorganismos, principalmente bactérias e protozoários que contribuem na digestão das fibras vegetais retirando deles os nutrientes necessários à manutenção da vida. Também os próprios órgão e células se especializaram neste tipo de alimento.
Um fato muito curioso é que, já em 1923, o cientista e teósofo austríaco Rudolf Steiner publicou uma série de livros entitulados “Saúde e Doença”. Numa das passagens de sua obra o escritor fez a seguinte indagação: “O que aconteceria se, em vez de vegetais, o boi se pusesse a comer carne?”. Após uma explicação baseada nas reações bioquímicas dos compostos nitrogenados dentro do organismo do bovino e os potenciais problemas que tais compostos poderiam acarretar ao sistema nervoso, conclui: “... a vaca ficaria louca”.
É interessante notar que por mais que os atuais sistemas de produção considerem os animais como verdadeiras fábricas, nunca será possível sustentar tais métodos. Em 1947, o filósofo Mokiti Okada abordava temas referentes à nutrição, relacionando-a às Leis da Natureza e através de uma comparação aparentemente simples, declarou: “Suponhamos que haja uma fábrica destinada a determinada produção. Dispondo-se de matéria prima como ferro e carvão e do trabalho dos operários, da ação das máquinas, da queima do carvão e de vários outros processos, conseguir-se-á um produto acabado. Portanto, esse processo constitui a própria vida da fábrica. Se, desde o início, transportássemos para lá produtos já acabados, não haveria mais necessidade do carvão, nem do trabalho dos operários e das máquinas, e a fábrica deixaria até de soltar fumaça pelas chaminés. Não havendo atividade, dispensar-se-iam os operários, e as máquinas acabariam enferrujando”. De forma semelhante, o problema atual da BSE surgiu quando, para produzir carne bovina, utilizou-se resíduos da própria carne bovina na ração. O resultado foi que os animais, assim como a fábrica, pereceram.
Assim, mais uma vez é o próprio homem quem paga pelo desrespeito à forma natural de desenvolvimento dos seres vivos, mais especificamente, neste caso, dos animais destinados a um fim extremamente nobre que é a produção de alimentos. Quais lucros poderão ser obtidos quando a população passa a não confiar mais na carne que consome, entrando em pânico devido à ameaça de uma doença extremamente letal. Onde estará a viabilidade em se sacrificar rebanhos inteiros? Em fevereiro de 2001, a Alemanha confirmou a proposta de sacrificar 400 mil bovinos, participando de um programa que envolve todos os membros da Comunidade Européia e que têm como meta o sacrifício de 2 milhões de cabeças como forma de minorar o colapso do consumo e dos preços da carne devido à EEB.
Vivemos num país com um potencial imenso para a produção de alimentos em consonância com as Leis da Natureza, sejam de origem animal ou vegetal. É fundamental que como consumidores, reflitamos se essa busca pelo “mais barato” não vai ser muito cara na medida em que ingerimos alimentos que potencialmente podem acarretar sérios danos à nossa saúde.
(1) Médico Veterinário – Gerente de Produção Animal da Korin Agropecuária Ltda (2) Zootecnista – Deptº de Produção Animal da Korin Agropecuária Ltda |
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