favo de mel

Por Karen Longo, consultora em nutrição Korin

O Mel é um produto muito apreciado por todas as idades, devido seu potencial de adoçar comidas e bebidas. Todavia, o mel possui em sua composição além dos nutrientes que adoçam muitos compostos bioativos. Esses são substâncias não nutritivas, porém que desempenham diversas ações benéficas para o organismo humano. Quem nunca bebeu um chá com mel e plantas medicinais para melhorar a tosse e prevenir a gripe?

Considerado um subproduto apícola, o mel é produzido por diversas espécies de abelhas. A mais comum é a Apis mellifera, conhecida popularmente por abelha europeia, visto sua alta capacidade de organizar colônias e produzir quantidades grandes de mel. Essa espécie de abelha foi introduzida na América pelos espanhóis e ingleses, sendo que no Brasil, teve sua fixação em 1839 para a produção de mel e cera à população.

O mel é naturalmente produzido pelas abelhas, sendo o subproduto do néctar das flores e do trato aero-digestivo superior desses insetos. Possui um significado funcional, protege a colméia contra patógenos microbianos, toxinas e estresse pelo frio, bem como auxilia na regulação do desenvolvimento das abelhas e sua longevidade. O mel é armazenado na colmeia e serve como alimento durante uma estação do ano menos favorável, preservando a vida da colmeia.

 

Composição do mel

O mel é composto basicamente por carboidratos, representando de 70-80% de sua composição, destacando-se a presença de frutose e a glicose. Em vista disso, podemos entender porque o mel é utilizado por seu poder adoçante. Todavia muitos outros nutrientes são encontrados no mel como aminonácidos, minerais, vitaminas do complexo B, vitamina C e E.  E grande parte dos benefícios para a saúde humana provém da presença de compostos bioativos, como compostos fenólicos.

As análises de diversos tipos de méis demostraram uma presença significativa de flavonóis como quercetina e kampferol, flavonas como luteolina, apigenina e crisina, flavononas como naringenina e hesperidina, isoflavonas como genisteína, antocianinas. Alguns autores sinalizam que existam mais de 100 tipos diferentes de elementos químico e substâncias no mel que consumimos.

A presença desses compostos bioativos é dependente das secreções colhidas a partir dos compostos naturais presente no néctar das flores. Dessa maneira, as características do ambiente como sazonalidade e alterações climáticas interferem na composição do mel.  Quando existe a presença de um único tipo de floração, as características do mel serão similares à esse tipo de floração, por exemplo, mel de laranjeira, mel de lavanda, mel de eucalipto. Já quando existe variedade na floração, como ocorre em florestas e matas,  o mel chamado de silvestre, apresenta maior diversidade de compostos fenólicos e com isso maiores benefícios.

 

A importância de ser orgânico

Como visto, o mel possui em sua composição uma expressiva quantidade de compostos fenólicos que estão correlacionados com seus benefícios. Todavia, essa presença depende diretamente da origem, tipo de solo e da vegetação. Devemos lembrar que as abelhas, incluindo a Apis mellifera, são insetos polinizadores e que estão sujeitos às alterações de recursos florais e fatores estressores ambientais, como presença de parasitas e exposição à agrotóxicos.

A colmeia pode ser afetada pelo uso de pesticidas no ambiente. Dependendo do tipo de agrotóxicos o impacto se dá no número absolutos de abelhas. Mas além disso, pesquisadores demonstraram o efeito deletério de mais de 22 pesticidas diferentes, alterando a composição da cera, do mel e consequentemente impactando na saúde da abelha. Essas substâncias tóxicas se depositam na cera dentro da colmeia, expondo as larvas aos pesticidas e posteriormente afetando as abelhas adultas, uma vez que essas mastigam cera ao construir células na colmeia. Abelhas doentes não possuem um bom desempenho de suas atividades, afetando inclusive a quantidade e qualidade do mel produzido.

O equilíbrio do ambiente impacta, portanto na saúde da abelha e consequentemente na presença de compostos fenólicos no mel produzido. Os tipos de flores do ambiente onde a colmeia está, também contribuem com o status de saúde da abelha. Por exemplo, já foi demonstrado em pesquisa que a presença na vegetação de plantas ricas no composto ativo quercetina, faz com que essa molécula esteja presente na alimentação das abelhas, reforçando suas defesas contra a intoxicação do ambiente e dos pesticidas presentes na colmeia.

O conhecimento e preocupação com a origem dos produtos que as pessoas consomem é premissa básica para o status de saúde. E não é diferente quando escolhemos o mel que iremos consumir.

 

Ação benéfica para seres humanos

Desde a Antiguidade, o mel vem sendo empregado de maneira medicinal devido suas atividades antimicrobiana, estimulante imunológico e auxiliar na cicatrização de feridas. Mais recentemente pesquisadores validaram através de pesquisas científicas a atividade antioxidante, antimicrobiana, antifúngica, anticancerígena e anti-inflamatória. E reforçaram que essas ações do mel possuem correlação com o perfil de compostos bioativos, podendo então haver diferenças de acordo com o tipo de abelha e dados ambientais na origem do mel.

Devido a presença de uma gama de compostos fenólicos, o mel tem uma característica natural de antioxidante. E a presença de genisteina, crisina, luteolina e naringenina podem desempenhar um papel estrogênico. Esses compostos bioativos do mel contribuem para a manutenção da saúde do fígado e rins, propiciando uma eliminação aumentada de substâncias potencialmente tóxicas (xenobióticos). Pesquisadores demonstraram que o uso de mel pode ser útil durante o tratamento com medicamentos que possivelmente sobrecarregam o fígado e os rins, resgatando as rotas de defesa química do organismo (sistema antioxidante) e normalizando os exames de sangue.

Além disso, o mel possui uma potente atividade bactericida, inclusive agindo contra bactérias resistentes à antibióticos. A atividade antimicrobiana na maioria dos méis se deve à produção enzimática de peróxido de hidrogênio, atuando contra diversas cepas como Streptococcus mutans, Streptococcus salivarius, Sreptococcus gordonii, Eschericchia coli, Spretococcus aureus entre outras. Essa ação possui uma correlação direta com a redução do risco de várias infecções, além de que o mel ainda possui uma propriedade imunomoduladora (relacionada ao estímulo a TNF-α) sendo assim relevante para o reparo de feridas.

O mel pode ter efeito protetor para diversas doenças crônico degenerativas como as doenças do coração, intestinas e respiratórias, prevenção do câncer, saúde cerebral. Apesar de pesquisadores têm apontado inclusive um benefício para o tratamento do diabetes, essa indicação deve ser avaliada por um profissional nutricionista, visto que grande parte da composição do mel são açúcares, o padrão alimentar precisa ser ajustado para as pessoas portadoras de diabetes.

 

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