Dia do Apicultor: Conheça Cezar Ramos, produtor de mel da Korin

Postado em 19 de maio de 2020

“O apicultor é um ambientalista nato porque quem trabalha com as abelhas aprende a apreciar a natureza. As plantas, as flores, passam a ser vistas de forma diferente”.
(Cezar Ramos Junior, apicultor)

 

O Brasil possui um clima extremamente favorável para a apicultura e, por isso, aqui são produzidos alguns dos melhores méis de todo o mundo, através do trabalho das abelhas e do apicultor, profissional de quem vamos falar neste post.

Sabemos que as abelhas desenvolvem um trabalho valioso e indispensável para o nosso planeta: a polinização, que resulta na manutenção das florestas e na produção de frutas, legumes e verduras, essenciais para a nossa alimentação, assim como a de outros animais.

Por isso, preservar esses insetos e a cultura da apicultura é tão fundamental.

No entanto, a existência das abelhas está sob ameaça. Isso porque o uso abusivo de agrotóxicos nas lavouras tem exterminado populações inteiras de abelhas, que acabam desenvolvendo vício pelos agrotóxicos e são, consequentemente, levadas à morte.

Devido ao risco apresentado para as abelhas, muitos agrotóxicos foram proibidos na União Europeia, mas seguem legais no Brasil e utilizados em abundância. Por isso, é muito importante o incentivo da prática da apicultura livre de agrotóxicos e adubos químicos e o consumo de mel orgânico certificado.

 

Leia também: Como salvar as abelhas? 

 

No dia 22 de maio comemoramos o Dia do Apicultor no Brasil. A data é celebrada junto ao dia de Santa Rita de Cássia, considerada a padroeira dos apicultores. Em maio, no dia 20, também celebramos o Dia das Abelhas, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2018.

O apicultor possui um papel fundamental no processo de produção do mel e seus derivados, pois é capaz de entender o comportamento das abelhas e sua biologia, otimizando o processo desses produtos ricos em nutrientes e agentes indispensáveis para o fortalecimento do sistema imunológico.

Para falar um pouco sobre esta profissão tão importante para o agronegócio e comemorar o Dia do Apicultor, conversamos com alguém que entende bem do assunto. Cézar Ramos Junior, produtor da linha apícola orgânica da Korin e CEO da Bee Própolis, fala sobre apicultura, benefícios do mel e da própolis verde para a saúde e muito mais. Confira o que rolou neste bate papo a seguir.

 

Cezar Ramos Junior, produtor parceiro da Korin

Cezar Ramos Junior, produtor parceiro da Korin

 

Qual o papel do apicultor na produção de mel e seus derivados?

Cézar – O papel do apicultor no processo de produção é fundamental; tão importante quanto o papel do consumidor. Posso dizer que a razão do nosso trabalho e da Korin na apicultura só tem significado por causa desses dois personagens.

Quando o apicultor não é valorizado, ele não consegue desenvolver a apicultura como atividade comercial (criar a abelha e fazer a produção de mel). Então, se não temos o apicultor, também não teremos o mel e a própolis.

Por outro lado, se o apicultor for valorizado, vai levar este mel, fruto do seu trabalho realizado com todo o carinho e qualidade, para a mesa do consumidor.

 

Qual a importância deste profissional para a agropecuária brasileira?

Cézar: Podemos dizer que a apicultura é uma cultura ambientalmente, economicamente e socialmente sustentável.

Estima-se que 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros existem graças à abelha, em função da polinização.

Dessa forma, calcula-se que mais de R$ 60 bilhões foram gerados no Brasil no último ano com a produção de alimentos, em função da polinização realizada pelas abelhas. Então, o papel do apicultor neste processo é gigantesco.

 

De que forma, você acredita, que os apicultores podem colaborar para a preservação do planeta?

O apicultor é um ambientalista nato porque, quem trabalha com as abelhas, aprende a apreciar a natureza. As plantas, as flores, passam a ser vistas de forma diferente.

A gente sabe que, por conta das mudanças climáticas e em razão da aplicação de agrotóxicos nas plantações, as abelhas estão sumindo. Então, há uma preocupação muito grande por parte de produtores e ambientalistas.

Graças aos apicultores, que fazem um bom manejo no apiário, a espécie ainda está se mantendo conservada em muitos locais mundo afora. Conservando as abelhas com o objetivo de produzir o mel e a própolis, automaticamente, as abelhas realizarão a polinização.

Outro ponto importante para a manutenção desse sistema sustentável é que qualquer pessoa pode se tornar um apicultor. Para ter uma ou duas colmeias, o investimento é muito baixo: além de atividade comercial — somente em 2017 foram 41,5 mil toneladas de mel produzidos no Brasil, segundo o IBGE — a apicultura também é um hobbie praticado por muitos brasileiros.

 

Como é o dia a dia dentro da produção de mel?

O dia a dia do apicultor no campo é maravilhoso, pois ficamos em meio à natureza. Por outro lado, é preciso gostar muito do que se faz porque temos que usar equipamento de proteção, uma vez que a nossa abelha é muito defensiva. Não é um trabalho fácil, mas é muito gratificante. A apicultura, para nós, é sagrada, pela produção do mel, da própolis e pela polinização.

 

“A apicultura, para nós, é sagrada, pela produção do mel, da própolis e pela polinização” diz Cezar

Processo de coleta de favos de mel na colmeia

 

Qual a importância da abelha para o ecossistema?

A importância das abelhas para o ecossistema é vital. Várias espécies de plantas só são cultivadas através das abelhas, com a polinização. É essencial que mantenhamos a polinização para a perpetuação das espécies vegetais e, também, para a produção de alimentos.

Nesse sentido, a produção orgânica é muito importante para preservar as abelhas.

 

Como você, como produtor, enxerga o desaparecimento de populações de abelhas, que tem colocado em risco a espécie? 

Cézar: O desaparecimento das abelhas é muito preocupante. No Brasil, esta incidência ainda não é tão grande como em outros países, especialmente no Hemisfério Norte, onde o clima é temperado. Mesmo assim, segundo pesquisas, cerca de 13% das abelhas terão desaparecido do país em, até, trinta anos.

Outras espécies de animais e insetos necessários para o equilíbrio ambiental também estão sumindo. Acredita-se que boa parte desse problema seja desencadeado pelos agrotóxicos então, vemos isso com grande preocupação.

Eu, na condição de presidente da Federação Mineira de Apicultura, tenho procurado o governo do Estado e outras federações, além de conversar com vários apicultores, para buscar minimizar este problema do sumiço das abelhas.

A gente sabe que os pomares de laranja e café do Brasil estão sendo utilizados para as abelhas fazerem a polinização. O Brasil não tem cultura de valorizar o apicultor para levar as abelhas para polinizar. O apicultor leva as abelhas para essas lavouras com o objetivo de produzir mel e, assim, o produtor de café e de laranja estão sendo beneficiados.

Nos EUA é o dono do pomar quem paga o apicultor. Além de ter o mel, o apicultor é remunerado para aumentar a polinização e, consequentemente, a produção agrícola. Porém, nós temos o problema sério dos agrotóxicos, o que não acontece no caso da produção orgânica.

Estamos em áreas nativas (na região da Serra da Canastra) então o mel e a própolis que vão para a Korin são provenientes de áreas orgânicas, por isso, nós não temos enfrentado este tipo de problema.

 

A abelha retira a resina na brotação da planta para produzir a própolis verde. Minas Gerais é o único local do mundo em que a própolis tem a coloração verde devido à presença de clorofila.

 

Por que consumir mel e por que a opção orgânica é melhor, na sua opinião?

A vantagem de se consumir o mel é que você vai ingerir açúcares naturais, diferente dos açúcares industrializados, que podem ter algum elemento químico ou conservante que não fazem bem à saúde.

Por isso, o mel é um alimento superior, pois é natural. Nosso corpo precisa de carboidratos e mel é energia boa.

Além disso, o mel é um poderoso anti-séptico, antioxidante, antibiótico natural, anti-reumático, diurético, digestivo, expectorante e calmante.

A versão orgânica é mais saudável, pois é livre de agrotóxicos que podem prejudicar, a longo prazo, a saúde humana.

 

Quais os diferenciais da própolis verde? E seus benefícios à saúde?

O centro-sul de Minas Gerais é o único lugar do mundo onde se produz a própolis verde. A coloração se explica porque a abelha colhe a resina na brotação da folha, saindo com bioflavonoides e clorofila.

É um produto relativamente novo, com trinta e dois anos de mercado. Quando eu comecei a trabalhar com abelhas, ha quase quarenta anos, jogava-se essa própolis fora, pois julgávamos que ela não tinha valor comercial.

Foram alguns empresários japoneses que consumiam a própolis do Japão e da China que experimentaram a própolis brasileira e perceberam que algumas características dela jamais haviam sido encontradas nas própolis do continente asiático.

O que mais chamou a atenção desses empresários foi o artepillin C presente na nossa própolis verde, cuja ação foi identificada no combate a algumas doenças e na cicatrização de feridas.

A abelha coleta essa resina em uma planta chamada alecrim do campo, existente em praticamente toda a América Central. Ainda não se sabe porque só aqui na região de Minas Gerais esse alecrim do campo produz essa resina verde ao soltar a brotação foliar.

Muitas pessoas consomem ainda a própolis verde como suplemento alimentar.

 

A origem da própolis verde nas colmeias. As abelhas constroem uma barreira na colmeia com a própolis para evitar invasores que podem trazer doenças

 

Como está o consumo dos produtos com a COVID-19?

Com a COVID-19 está havendo um aumento bastante expressivo no consumo de produtos das abelhas. Popularmente, já há muitos anos, o mel e própolis são conhecidos no combate à gripe. Agora temos evidências científicas que indicam que a própolis e o mel possuem ação contra os vírus da gripe. Algumas pesquisas também indicam que a própolis potencializa o sistema imunológico, deixando-o mais resistente contra inflamações e infecções. Diante deste conhecimento popular e com evidências científicas, durante a pandemia, houve um aumento expressivo do consumo desses produtos.

 

Conte um pouco sobre a história da apicultura no Brasil 

A apicultura no Brasil se iniciou no século XIX. As abelhas apis (com ferrão), que são de origem europeia, vieram da Itália e da Alemanha para o Brasil. Eram abelhas dóceis, de clima temperado.

Naquela época, se utilizava a cera produzida pelas abelhas para fazer velas e colocar no altar da igreja. Porém, em 1956, um pesquisador da UNESP de Rio Claro, resolveu melhorar a genética desta abelha para que ela se adaptasse melhor ao clima tropical brasileiro.

Ele percebeu as mesmas características de abelhas de climas tropicais na África. Pensou então que, se trouxesse a abelha apis da África e ‘misturasse’ com a abelha apis da Europa, obteria uma linhagem mais adaptável ao clima do Brasil, e assim ele fez.

Porém, este cruzamento deu origem a uma linhagem de abelhas muito defensiva, conhecida como abelha africanizada. Nas décadas de 1960 e 1970, houve muitos acidentes fatais. Por isso, hoje temos que criar esta abelha a, pelo menos, 200 metros de distância das residências e das estradas.

A abelha africanizada tem capacidade de perpetuação da espécie bem maior do que a abelha europeia. Para se ter uma ideia, essa abelha surge no Brasil em 1956 e hoje já ocupa toda a América desde o Brasil até a divisa do México com os Estados Unidos.

A capacidade defensiva das abelhas africanizadas existe, principalmente, para acabar com as doenças dentro da colmeia. As abelhas europeias tem muitos problemas com percevejos e acabam necessitando de tratamento com antibióticos. Isso porque a colmeia com 60 mil, 70 mil indivíduos, fica suscetível a doenças. A abelha africanizada, por outro lado, é capaz de eliminar qualquer problema na colmeia e deixando-a bastante higienizada.

Ela busca enzimas nas plantas, no caso o alecrim do campo, que solta resina verde que vai impermeabilizar toda a colmeia, protegendo contra doenças. Isso fez com que, na década de 1980, a própolis passasse a ser explorada como atividade comercial, em benefício da saúde humana.

Equipe de apicultores nas colmeias que produzem a linha apícola da Korin

 

Observando toda a sua história nesta profissão, o que você destacaria na sua trajetória como apicultor?

Eu comecei a trabalhar com abelhas em 1982, aos 10 anos de idade. Morava com meus pais e sete irmãos (sou o caçula). Meu pai era sitiante, produtor de leite. Eu, influenciado pelos amigos do meu pai, que trabalhavam com abelhas, adquiri minha primeira colmeia, ainda criança.

Em 1986, fiz meu primeiro curso de apicultura e entrei de cabeça no negócio, que foi se desenvolvendo desde então. Comecei a trabalhar com a própolis verde, com mel e, em 1995, decidi montar uma empresa para exportar porque eu vendia toda a produção no mercado nacional e havia surgido a oportunidade de exportar essa própolis verde diretamente para o Japão como um produto 100% natural do centro-oeste de Minas Gerais. Fundei esta empresa, chamada Natucentro, com o meu irmão, Fernando Ramos.

Em 1999, realizei minha primeira exportação de própolis verde para o Japão. Com a empresa maior e em pleno desenvolvimento, em 2010, automatizamos todo o processo produtivo. Porém, não tínhamos um mercado muito grande dentro do Brasil. Por isso, criamos a Bee Própolis, que ganhou esse nome pois 80% dos nossos produtos são à base de própolis.

Para completar, fomos em busca de parceiros comerciais e encontramos a Korin. Nós aqui adoramos a Korin e a filosofia da empresa, sua seriedade e seus produtos fantásticos.

A Korin parabeniza o Cézar, a equipe da Bee Própolis e todos os valiosos trabalhadores da apicultura pelo Dia do Apicultor. Veja mensagem do Cezar a todos os produtores de mel do Brasil:

 

 

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