Método Korin Agropecuária vira tese de doutorado

Postado em 12 de agosto de 2014

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Trabalho desenvolvido por Luiz Carlos Demattê Filho, veterinário e mestre em zootecnia, mostra que a prática da Agricultura Natural pela Korin, maior produtora de orgânicos do país, tem consolidando um sistema agroalimentar com produção sustentável

São Paulo,  11 de agosto de 2014 – No próximo dia 14 de agosto, a Korin Agropecuária, uma das maiores empresas brasileiras de produtos naturais e orgânicos, será o centro das atenções de uma conceituada banca examinadora formada por docentes da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e também da universidade francesa AgroParisTech, referência na área de agricultura. Na ocasião, Luiz Carlos Demattê Filho*, mestre em zootecnia e diretor industrial e gestor de projetos da Korin, defenderá sua tese de doutorado em Ciências, cujo trabalho de pesquisa foi focado nas atividades e nas relações desenvolvidas em torno dessa agroindústria. Sob o tema “Sistema agroalimentar da avicultura fundada em princípios da Agricultura Natural: multifuncionalidade, desenvolvimento territorial e sustentabilidade”, o trabalho de Demattê começou a ser desenvolvido em 2010 e contou com bolsa de estudos para o estágio doutoral do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), por meio do Programa Ciência sem Fronteiras, realizado no Departamento de Agroecologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Conforme Demattê, a escolha da Korin deve-se aos seus princípios, conceitos e métodos produtivos, implantados desde a fundação da empresa e disseminados aos produtores, parceiros e consumidores. Os fundamentos da Korin estão baseados na Agricultura Natural, sistema agrícola preconizado pelo filósofo e espiritualista japonês Mokiti Okada (1882-1955), estudioso de diversas áreas que deixou imenso legado para a humanidade em ramos tão distintos  como a política, a medicina, a agricultura, a educação, a filosofia, a economia e a religião.  “Okada enfatizou a necessidade de um perfeito equilíbrio entre as atividades humanas e as forças da natureza, para se alcançar bons resultados na produção, privilegiando a segurança dos alimentos, a interação e o respeito à natureza e à saúde e o bem estar socioeconômico dos agentes participantes deste sistema. Segundo Okada, a Agricultura Natural é um dos pilares de sustentação de uma civilização e sociedade ideais, onde a saúde, a prosperidade e a paz são predominantes”, explica Demattê, em sua tese.

Método produtivo que vai ao encontro dos pilares da agricultura sustentável, pois não utiliza adubos químicos solúveis, agrotóxicos, antibióticos, melhoradores de desempenho e outros insumos industriais hoje muito comuns nas culturas convencionais e que notadamente têm contribuído para a degradação do meio ambiente, com a contaminação de solos, mananciais, agricultores e consumidores, além das péssimas condições a que são submetidos os animais criados para o abate. “Especificamente sobre a produção avícola de corte e postura convencional discutimos os problemas decorrentes do uso excessivo de antibióticos e promotores de crescimento, apresentando a evolução técnico-produtiva deste sistema de integração vertical alternativo (da Korin) no qual estas substâncias não são utilizadas e o bem estar animal é considerado. Prioritariamente abordamos, neste trabalho, a sustentabilidade sob o ponto de vista da multifuncionalidade da agricultura, tratando também do desenvolvimento da empresa sob a ótica dos Sistemas Agroalimentares Localizados – SIAL”, ressalta Demattê, que também é veterinário.

Pesquisa qualitativa com produtores

Para consolidar a tese, Demattê realizou pesquisa qualitativa com 28 produtores de frangos e ovos (quatro no sistema orgânico e o restante com produção livre de antibióticos) que se relacionam com a empresa por contratos de integração vertical, no caso dos produtores de frango, e por contratos de produção e comercialização junto aos produtores de ovos. Desse total, 21 (75%) têm na avicultura sua principal fonte de renda; 20 (71,5%) são agricultores de base familiar, sendo que 17 se encaixam na classificação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), e respondem, respectivamente, por 63,5% e 86% da produção total de frangos e ovos.

Os produtores participaram de longas entrevistas, cujas questões abordaram suas atitudes, percepções e experiências em relação aos conceitos e métodos da Korin, ao meio ambiente, segurança alimentar e suas condições socioeconômicas. Entre as principais respostas, 75% consideram seus ganhos satisfatórios; 61% desejam aumentar sua produção, o que representa um desejo de permanência na atividade rural; 75% dos integrados afirmam que os treinamentos contribuíram na mudança de seu padrão alimentar e consideram que suas atividades agropecuárias permitem cuidar da natureza; 61% afirmam que houve mudanças também com relação aos tipos de alimentos consumidos, resultando, portanto numa maior conscientização a cerca do consumo de alimentos; e 61% acreditam que contribuem para a manutenção do abastecimento de produtos alimentícios de qualidade e em quantidades para a sociedade.

“O objetivo foi investigar em que medida as características de um sistema de integração avícola, coordenado por uma agroindústria de capital privado cuja orientação se funda em princípios agroecológicos na produção, são aderentes aos ideais de sustentabilidade nas esferas social, econômica e ambiental. Interessou-nos, neste sentido, investigar as influências territoriais que este sistema vem trazendo, num território tradicional da produção avícola brasileira e hoje essencialmente dominado pela produção em larga escala de cana de açúcar, pecuária bovina extensiva, citros e, mais recentemente, exploração madeireira”, informa o executivo.

Histórico de sustentabilidade

Em relação à sede da Korin, também está nesse contexto um estudo, que contou com a colaboração de Demattê, sobre a sustentabilidade do sistema de produção da empresa, medida por indicadores socioambientais desenvolvidos pela Embrapa Meio Ambiente. “Trata-se do APOIA – Novo Rural, voltado para análise de unidades produtivas rurais. A análise integrada de sustentabilidade avalia a gestão ambiental do estabelecimento rural, tendo como base o contexto local e as práticas de manejo adotadas”, explica, acrescentando que nessa pesquisa a Korin obteve um excelente índice integrado de sustentabilidade (0,87), justificado pelo seu histórico de mais de 20 anos de práticas relacionadas à Agricultura Natural.

Demattê  lembra que a avicultura industrial se desenvolveu de forma pioneira na região em torno de Rio Claro e Ipeúna, cidades do interior de São Paulo onde concentram-se os produtores integrados que fazem parte do estudo. “Neste último município está instalada a Korin.  Portanto, a produção de frangos de corte é uma atividade relevante nesta região, perfazendo um extenso número de estabelecimentos rurais relacionados a esta atividade e nosso intuito é discutir a transformação em curso neste território, originariamente marcado por uma avicultura exercida em bases convencionais, na direção de uma avicultura ‘alternativa’. Deste modo, o principal objetivo desta tese é examinar até que ponto aspectos multifuncionais da agricultura são considerados no âmbito deste sistema de produção avícola, e se difundem direta ou indiretamente neste território”, afirma Demattê, para quem os dados obtidos junto aos avicultores integrados mostram que a prática da Agricultura Natural tem contribuído sinergicamente para que as dimensões da multifuncionalidade da agricultura sejam reconhecidas na região, dinamizando e consolidando um sistema agroalimentar localizado sob uma perspectiva de sustentabilidade na produção agropecuária.

Sistema em evolução

Para Demattê, a Agricultura Natural considera uma série de fatores que se aproximam de aspectos multifuncionais da agricultura – produção de alimentos de qualidade, preservação ambiental, respeito da biodiversidade, bem estar social e econômico de produtores. “Okada posiciona a agricultura como uma das principais atividades humanas capazes de criar uma civilização harmônica e feliz. Neste sentido, as práticas agrícolas, realizadas por intermédio da observação da natureza, possuem adicionalmente um caráter educativo, na medida em que seriam capazes de elevar a compreensão do homem para uma atuação social e ambientalmente responsável. Num sentido intangível pela análise científica, a agricultura é vista por Mokiti Okada, em razão de seu olhar religioso, como uma manifestação da natureza inerente e subordinada à vontade divina”, expõe Demattê.

Sob essa influência, o trabalho de coordenação desempenhado pela Korin promove, na opinião de Demattê, a criação de um sistema agroalimentar localizado. “Produtores, empresa, canais de comercialização e consumidores formam um sistema que se integra e se retroalimenta, onde seus agentes, conectados pelos princípios da Agricultura Natural, quer seja de forma consciente ou inconsciente, promovem uma compreensão, sobretudo, de hábitos alimentares e ambientais diferenciados. Os produtos comercializados, que são o resultado da aplicação de normas, protocolos de certificação e selos de qualidade com atributos de diferenciação, fortalecem a ideia de que um Sistema Agroalimentar Localizado (SIAL) está em franco desenvolvimento.”

Incentivos aos parceiros

A Korin atua em várias cadeias produtivas: na produção e comercialização de legumes, frutas, verduras e cereais orgânicos; de insumos para agricultura orgânica e sustentável; frangos e ovos orgânicos e livres de antibióticos. Além do Brasil, a empresa tem unidades independentes no Japão, França e Tailândia.  Em Ipeúna, centraliza a de produção de frango, ovos e Bokashi — linha de insumos para a agricultura orgânica, também utilizada para a agricultura convencional com o objetivo de reduzir o uso de agroquímicos e introduzir práticas de conservação de solo nas propriedades.

Na produção de frango e ovos, integra 25 produtores de frango e 3 de ovos. “Já são consumidas mais de mil toneladas de milho a cada mês e, nesta atividade, a empresa utiliza a produção local distribuída em cerca de 200 pequenos e médios produtores da região, fortalecendo desta forma uma cadeia de suprimentos local”, diz Demattê. Conforme o executivo, a Korin estabelece contratos de compra antecipada de milho, financia parte ou a totalidade da produção de pequenos produtores, onde se espera o desenvolvimento de uma produção em bases também naturais. “A empresa visa apoiar  esses produtores para a obtenção de selos de produção orgânica. Para isso, montou uma rede de relações institucionais compreendendo colaboradores, técnicos e empresas afinadas com seus propósitos.”

Luiz Carlos Demattê Filho

Possui graduação em Medicina Veterinária pela UNESP – Campus de Botucatu (1986) e mestrado em Zootecnia- Área de Concentração Nutrição Animal pela mesma Universidade (2004). É Pós Graduado em Gestão Estratégica do Agronegócio pela FGV. Foi bolsista do CNPq, junto ao Departamento de Agroecologia da Universidade de Aarhus na Dinamarca, onde realizou seu estágio doutoral. Atua na implantação de novos modelos de produção animal diferenciada, principalmente em modelos livres do uso de antibióticos e melhoradores de desempenho de base antibiótica. É Diretor Industrial e gestor de projetos na Korin Agropecuária Ltda. Foi membro do Conselho de Certificação da Certificadora Mokiti Okada (CMO) e atualmente é membro da Câmara Temática de Agricultura Orgânica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento representando a Fundação Mokiti Okada na mesma. É secretário executivo da Associação da Avicultura Alternativa – AVAL, na qual coordenou os trabalhos que resultaram na elaboração do sistema de certificação de produção de frangos e ovos livres de antibióticos e atualmente coordena o projeto de elaboração de normas para produção do frango caipira junto a ABNT.  Tem experiência na área de Agricultura Sustentável, Agricultura e Pecuária Orgânica, Medicina Veterinária, Zootecnia, Nutrição Animal, Gestão da Qualidade, Gestão de Projetos, Desenvolvimento de novos produtos e Gestão Estratégica do Agronegócio. Mais recentemente assumiu a Coordenação Geral do Centro de Pesquisa em Agricultura Natural da Fundação Mokiti Okada – CPMO, cujas linhas de pesquisa são: Manejo de solo e plantas, pesquisa e desenvolvimento de sementes, produção animal e aquicultura em sistemas naturais, orgânicos e agroecológicos de produção. Desde 2010, iniciando com este programa de doutorado que ora se finda, está envolvido em estudos que buscam avaliar as condições de produtores de frangos e ovos integrados á empresa Korin, com relação aos aspectos multifuncionais da agricultura.  

Por Luciana Juhas Mtb 27948